Quando o open finance foi anunciado, em 2022, a promessa era grande: o cliente compartilha dados, a instituição decide mais rápido, o crédito chega mais barato. Quatro anos depois, o efeito sobre o custo de crédito ainda é modesto. Mas o efeito sobre o tempo de aprovação — esse está aparecendo, e merece atenção.

O dado que mudou

Em conversa com seis fintechs de crédito que operam na regulated open finance, ouvimos o mesmo número, com pequena variação: o tempo médio entre a solicitação e a decisão final caiu de algo entre 5 e 8 dias úteis para algo entre 18 e 36 horas. Isso para o tomador que aceita compartilhar dados via padrão oficial — não para quem ainda envia extrato em PDF por e-mail.

“Não reduzimos o risco. Reduzimos o tempo de descobrir o risco. E, às vezes, isso basta para mudar o produto.” — diretora de risco de fintech em São Paulo

Por que o tempo caiu

A resposta curta é: a conferência deixou de ser manual. Em vez de um analista abrir três telas para verificar renda, o sistema consulta a fonte autorizada em segundos. A decisão, em muitos casos, é automática — o humano entra só em exceção.

A aprovação não ficou mais barata. Ficou mais rápida — e isso muda o produto.

Onde o efeito ainda não chegou

O que esperar

O efeito deve se concentrar, nos próximos dois anos, no crédito pessoal e no capital de giro de pequeno porte — produtos de decisão rápida, com ticket baixo e alta frequência. Para o crédito grande e garantido, o open finance quase não altera o fluxo. É uma distinção importante, e que costuma se perder na cobertura.

Segundo efeito: produto, não só velocidade

Fintechs que reduziram tempo de decisão começaram a testar limites dinâmicos — aumentar teto para quem compartilha mais dados, reduzir para quem recusa. Isso não estava no roteiro regulatório original, mas é consequência lógica: se você enxerga risco mais cedo, pode modular oferta em tempo real. Três das seis instituições ouvidas já operam alguma variante desse modelo em piloto.

Para o tomador, a experiência muda sutilmente: em vez de «aprovado ou negado em cinco dias», passa a ser «aprovado em horas, com teto que pode subir se você autorizar mais fontes». Não é necessariamente mais barato — às vezes é mais caro, porque a instituição precifica incerteza residual. Mas é mais previsível no calendário de caixa, o que importa para quem paga folha toda sexta.

Perguntas que ainda não têm resposta

Quanto do ganho de velocidade será repassado ao cliente em taxa menor? Até agora, pouco. O open finance encurtou fila; não disputou margem. Reguladores monitoram, mas o mercado ainda está em fase de captura de eficiência interna. Segundo ponto: como fica quem não quer compartilhar dado? Hoje, paga com tempo — e, em alguns casos, com teto menor. Isso cria dois mercados paralelos de crédito, o que merece debate público mais amplo do que temos visto.

Ricardo Amorim

Colunista do Fluxo Editorial. Economista (USP), ex-mesa de renda fixa. Escreve sobre crédito e liquidez toda semana.

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